Como produzir materiais de prevenção que informem sem provocar medo ou estigmatização?

Antes de aprofundar

Materiais de prevenção costumam nascer de uma intenção legítima: tornar um risco conhecido para que pessoas possam reconhecê-lo, proteger-se e procurar recursos quando necessário. O problema aparece quando, na tentativa de chamar atenção, a comunicação exagera ameaças, transforma grupos em “grupos de risco” definidos por estereótipos ou utiliza imagens e frases tão dramáticas que o leitor termina mais assustado do que orientado.

Em saúde mental, esse cuidado é particularmente importante. Uma campanha pode querer incentivar a busca por ajuda e, ao mesmo tempo, utilizar uma linguagem que apresenta pessoas em sofrimento como imprevisíveis, frágeis, perigosas ou incapazes. Pode querer prevenir e, sem perceber, aumentar vergonha, afastamento ou receio de ser identificado com aquele problema.

Estigma não é apenas uma questão de palavras inadequadas. O o descreve em termos de atitudes, crenças negativas e estereótipos associados às condições de saúde mental e destaca que ele pode dificultar ou atrasar a procura por cuidado.

Por isso, prevenção responsável precisa combinar três movimentos: informar o risco com precisão, mostrar o que pode ser feito e preservar a dignidade de quem vive aquela experiência. A força de um material preventivo não deveria ser medida pelo medo que consegue provocar, mas pela capacidade de aumentar compreensão e possibilidade de ação.

Prevenir não é assustar

O medo pode chamar atenção rapidamente. Isso não significa que seja a melhor base para uma comunicação preventiva.

Uma imagem extrema, uma estatística apresentada sem contexto ou uma frase como “isso pode acontecer com você a qualquer momento” pode gerar impacto, mas impacto não é sinônimo de compreensão. Em alguns públicos, uma comunicação excessivamente ameaçadora pode favorecer paralisação, afastamento da mensagem ou sensação de que o problema é inevitável.

A comunicação de risco em saúde pública procura justamente oferecer informações capazes de sustentar decisões informadas e comportamentos protetivos. A OMS enfatiza que uma comunicação confiável precisa ser transparente, relevante e capaz de informar o que se sabe, o que permanece incerto e quais ações são possíveis.

Isso muda a pergunta editorial. Em vez de:

“Como tornar essa mensagem mais alarmante?”

é mais útil perguntar:

“O que a pessoa precisa compreender para reconhecer o risco e saber o que pode fazer diante dele?”

Prevenção exige percepção de risco, mas precisa vir acompanhada de orientação, recursos e possibilidade concreta de resposta.

Informar risco exige proporção e contexto

Um material preventivo pode ser tecnicamente correto e ainda assim induzir a uma percepção distorcida.

Isso acontece quando um dado verdadeiro é apresentado sem referência suficiente. Uma estatística relativa pode parecer muito mais ameaçadora quando o leitor não sabe qual é a frequência absoluta do fenômeno. Um fator associado pode ser apresentado como causa. Um sinal possível pode ser descrito como se fosse confirmação de uma condição.

Em saúde mental, listas do tipo “cinco sinais de que alguém tem determinado transtorno” são especialmente problemáticas quando comportamentos comuns são retirados do contexto. Alterações no sono, isolamento, irritabilidade ou preocupação podem aparecer em diversas situações da vida e não permitem, isoladamente, uma conclusão diagnóstica.

Um material educativo pode apresentar sinais que merecem atenção. O cuidado está em explicar o que eles permitem perceber e o que não permitem concluir.

A diferença pode ser pequena na redação:

“Este comportamento indica depressão.”

não tem o mesmo significado que:

“Mudanças persistentes no humor, no interesse ou no funcionamento cotidiano podem merecer atenção, especialmente quando causam sofrimento ou prejuízo importante.”

A segunda formulação informa sem transformar prevenção em diagnóstico à distância.

O problema deve aparecer sem se tornar identidade

A estigmatização aumenta quando a pessoa desaparece e resta apenas a condição.

Expressões como “o depressivo”, “o bipolar”, “o viciado”, “o esquizofrênico” ou “o doente mental” podem reduzir histórias complexas a uma classificação única. O recomenda comunicação direta e respeitosa em saúde mental, evitando formulações que reforcem estereótipos e julgamento.

A escolha das imagens também importa. Se materiais sobre sofrimento psíquico mostram sempre pessoas isoladas, com o rosto escondido, em ambientes escuros ou em situações de descontrole, começam a construir uma representação visual estreita daquilo que uma condição significa.

Prevenção responsável precisa permitir que o público reconheça uma experiência sem transformar quem a vive em caricatura.

Isso significa falar sobre:

sofrimento, sem definir a pessoa pelo sofrimento;

risco, sem apresentar destino inevitável;

vulnerabilidade, sem produzir inferiorização;

busca por ajuda, sem transformar quem procura cuidado em incapaz.

O objetivo é tornar o fenômeno reconhecível preservando a humanidade de quem pode estar vivendo aquela situação.

A linguagem precisa orientar uma ação possível

Uma mensagem preventiva perde força quando termina apenas com:

“Fique atento.”

Atento a quê? E o que fazer depois?

A OMS, em suas orientações sobre comunicação para mudança de comportamento, destaca que materiais precisam levar em conta recursos disponíveis e orientar as pessoas para ações que possam realmente realizar. Também recomenda verificar se os recursos sugeridos existem antes de incentivar determinada conduta.

Por isso, uma boa comunicação preventiva deveria responder, sempre que pertinente:

O que merece atenção?

O que a pessoa pode fazer?

Onde buscar informação ou cuidado?

Quando a situação exige outra forma de resposta?

Como confirmar se aquele recurso está disponível?

Compare duas mensagens:

“Não ignore os sinais. As consequências podem ser graves.”

e:

“Se mudanças persistentes estiverem causando sofrimento ou interferindo na vida cotidiana, procure orientação em um serviço de saúde ou com profissional habilitado. Em situações de urgência, utilize os serviços de emergência disponíveis em sua região.”

A segunda mensagem não elimina a seriedade. Ela acrescenta caminho.

Representar pessoas reais exige cuidado com estereótipos

Quem aparece em um material preventivo comunica tanto quanto o texto.

Se apenas determinados grupos são representados em associação com violência, uso de drogas, vulnerabilidade, transtornos mentais ou incapacidade, o material pode reforçar associações sociais que pretende combater.

O recomenda comunicação inclusiva, adaptação das mensagens ao público e cuidado para que imagens e linguagem não presumam que todos os integrantes de um grupo compartilham características ou comportamentos.

Isso não significa tornar todo material visualmente neutro ou genérico. Significa evitar que identidade social seja utilizada como atalho explicativo para risco.

Quando determinada população realmente apresenta uma vulnerabilidade específica, a informação pode ser comunicada sem reduzir aquela população ao problema. É possível explicar condições sociais, ambientais ou estruturais associadas ao risco em vez de apresentar características pessoais como se fossem a causa.

Essa distinção é central para materiais sobre pobreza, envelhecimento, infância, trabalho, migração, população rural, deficiência ou qualquer outro contexto em que condições de vida influenciem saúde e acesso ao cuidado.

A experiência de quem vive o problema pode qualificar a comunicação

Materiais preventivos produzidos apenas a partir do olhar técnico podem perder nuances importantes.

Pessoas que vivem determinada condição ou pertencem ao público ao qual o material se dirige podem perceber expressões ofensivas, imagens inadequadas, barreiras práticas e interpretações que não eram evidentes para quem produziu o conteúdo.

A OMS tem enfatizado abordagens de comunicação e prevenção centradas na comunidade, nas quais as populações afetadas participam do planejamento, da implementação e da avaliação das estratégias.

Essa participação não substitui conhecimento técnico. Ela acrescenta uma dimensão essencial: como a mensagem é recebida por quem precisa utilizá-la.

Uma frase pode parecer cuidadosa para o autor e soar acusatória para o público.

Uma imagem pode parecer impactante e ser percebida como humilhante.

Uma recomendação pode ser correta e, ainda assim, ser inviável para quem não dispõe do recurso sugerido.

Testar o material antes de sua divulgação ajuda a identificar essas distâncias.

Há temas em que a forma de comunicar exige proteção adicional

Alguns conteúdos de prevenção exigem cuidados específicos porque determinadas formas de exposição podem produzir efeitos indesejados.

Um exemplo importante é a comunicação sobre suicídio. A OMS mantém orientações próprias para profissionais de mídia e outros comunicadores, recomendando cuidado com detalhes, enquadramento da narrativa e destaque para possibilidades de ajuda, sobrevivência e recuperação. A atualização de 2023 ressalta que a maneira como suicídio é apresentado pode fortalecer ou enfraquecer esforços preventivos.

Isso mostra por que não existe uma fórmula única para todos os materiais preventivos.

A comunicação sobre violência, abuso, uso de substâncias, transtornos mentais, doenças infecciosas ou risco ocupacional também pode exigir limites específicos.

O primeiro passo editorial é reconhecer o grau de sensibilidade do tema e buscar orientações técnicas adequadas antes de definir linguagem, imagens e canais de divulgação.

Esperança não é minimizar o risco

Existe receio de que uma comunicação menos dramática banalize situações graves.

Não precisa acontecer.

É possível reconhecer gravidade e, ao mesmo tempo, mostrar possibilidade de proteção, acesso a recursos, tratamento, apoio e mudança.

Uma mensagem pode dizer:

“Essa situação pode produzir consequências importantes.”

e acrescentar:

“Existem medidas de proteção e caminhos de cuidado.”

Essas duas ideias não se anulam.

Comunicações que deixam o leitor apenas diante da ameaça podem produzir sensação de impotência. Materiais de prevenção ganham utilidade quando apresentam risco acompanhado de possibilidades realistas de ação.

Em saúde mental, isso também ajuda a combater uma imagem fatalista segundo a qual receber um diagnóstico ou atravessar uma crise significaria perder autonomia, trabalho, relações ou possibilidade de vida significativa.

A prevenção precisa informar sobre sofrimento sem transformar sofrimento em destino.

Do alerta à proteção

Um material preventivo consistente pode ser organizado por uma sequência simples:

compreender o risco → reconhecer situações relevantes → contextualizar → indicar proteção possível → orientar acesso a recursos.

O alerta continua presente, mas ocupa um lugar diferente. Ele inicia a compreensão em vez de dominar toda a mensagem.

Antes de publicar, algumas perguntas funcionam como bom crivo editorial:

A mensagem informa ou apenas assusta?

O risco está apresentado na proporção que as evidências permitem?

Algum grupo está sendo reduzido a um estereótipo?

A imagem escolhida preserva dignidade?

O leitor encontra uma possibilidade concreta de ação?

Os recursos indicados realmente existem e estão atualizados?

Quando essas perguntas são respondidas de forma consistente, prevenção e cuidado começam a caminhar na mesma direção.

Uma pergunta para levar

Antes de divulgar um material preventivo, talvez valha perguntar:

“Depois de receber esta mensagem, a pessoa ficará apenas mais preocupada ou estará também mais capaz de compreender, proteger-se e encontrar um caminho possível?”

Um bom material de prevenção não esconde o risco.

Ele evita transformar o risco na única coisa que o leitor consegue enxergar.


Perguntas frequentes

Um material de prevenção pode utilizar imagens fortes?

Pode haver situações em que imagens de impacto sejam pertinentes, mas intensidade visual deve ser justificada pela finalidade e avaliada quanto a possíveis efeitos de estigmatização, exposição ou sofrimento desnecessário. Impacto, isoladamente, não demonstra eficácia preventiva.

É errado falar sobre consequências graves?

Não. Consequências podem e devem ser informadas quando relevantes e sustentadas por evidências. O cuidado é apresentá-las com contexto e acompanhadas de orientações possíveis, evitando fatalismo ou ameaça desproporcional.

Como saber se uma frase é estigmatizante?

Um bom teste é observar se ela transforma uma condição em identidade, atribui características negativas a um grupo inteiro ou produz julgamento sobre quem vive determinado problema. Revisão por pessoas do público a que o material se destina também pode ajudar.

Mostrar sofrimento pode aumentar conscientização?

Pode, mas a representação precisa preservar dignidade e contexto. Imagens repetidamente associadas a descontrole, isolamento ou incapacidade podem reforçar estereótipos mesmo quando a intenção é conscientizar.

Materiais preventivos devem sempre indicar onde buscar ajuda?

Quando a mensagem envolve situações em que orientação, assistência ou cuidado podem ser necessários, indicar recursos verificáveis aumenta sua utilidade. A OMS recomenda que campanhas relacionem as ações sugeridas a recursos realmente disponíveis.


Glossário

Prevenção: conjunto de estratégias destinadas a reduzir ocorrência, exposição, agravamento ou consequências de determinado problema, conforme o campo em questão.

Estigma: conjunto de crenças, atitudes e estereótipos negativos que podem produzir julgamento, exclusão e barreiras à procura por cuidado.

Comunicação de risco: comunicação destinada a oferecer informações sobre riscos de maneira que pessoas e comunidades possam compreender a situação e tomar decisões informadas.

Linguagem estigmatizante: linguagem que reduz pessoas a condições, reforça estereótipos ou atribui julgamento negativo a indivíduos ou grupos.

Comunicação acionável: comunicação que, além de informar, permite compreender quais atitudes ou recursos são possíveis diante da situação apresentada.


Nota técnica

Este artigo utiliza princípios de comunicação em saúde, comunicação de risco e redução de estigma. A orienta que informações sobre risco sejam relevantes, transparentes e capazes de apoiar decisões informadas, incluindo participação das comunidades e atenção ao contexto em que as mensagens serão recebidas.

O recomenda linguagem respeitosa e não estigmatizante em comunicação sobre saúde mental e destaca que estigma pode constituir barreira à procura por cuidado. Também orienta o uso de comunicação inclusiva e atenção a estereótipos presentes em linguagem e imagens.

Em temas de maior sensibilidade, orientações específicas devem prevalecer sobre recomendações genéricas de comunicação. No caso da prevenção do suicídio, por exemplo, a OMS possui diretrizes próprias para comunicação pública e midiática.


Referências essenciais

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Communicating risks in emergencies. Apresenta princípios de comunicação de risco baseados em transparência, confiança e informação útil para decisões.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Behaviour change campaigns. Orienta comunicação voltada a comportamentos protetivos e recomenda que campanhas direcionem o público a recursos efetivamente disponíveis.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Risk communication and community engagement readiness and response toolkit: cholera. Geneva: WHO, 2026. Reforça abordagens comunitárias, contextuais e atenção à prevenção de estigma em comunicação de risco.

WORLD HEALTH ORGANIZATION; FAO; UNICEF. Communication for Behavioural Impact — COMBI Toolkit. Geneva: WHO, 2012. Propõe intervenções de comunicação tecnicamente fundamentadas, culturalmente apropriadas e viáveis para as comunidades.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing suicide: a resource for media professionals, update 2023. Geneva: WHO, 2023. Orientações específicas para comunicação responsável sobre suicídio e prevenção.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Mental Health Stigma. Atualizado em 2026. Apresenta estigma como conjunto de atitudes, crenças e estereótipos negativos e discute seu efeito sobre procura por cuidado.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Tips for Stigma-Free Communication About Mental Health. Recomenda linguagem direta, respeitosa e não estigmatizante.


Leituras relacionadas

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Sobre os autores

Djanira Soares — Enfermeira, psicanalista clínica, educadora e fundadora da Cuidar Soma — Psicanálise Integrativa. Possui formação e especializações nas áreas de Enfermagem Clínica, Educação na Saúde e Psicanálise Clínica e atua na formação de psicanalistas, com ênfase no desenvolvimento do raciocínio clínico e na compreensão integrada do ser humano.

Juan Alexandre Suarez — Advogado, engenheiro e consultor, com formação em Engenharia Elétrica e Direito e especialização em Segurança do Trabalho. Atua na estruturação de projetos, análise lógico-estrutural, gestão e interface entre aspectos técnicos, jurídicos e organizacionais nas produções da Cuidar Soma.


Nota institucional

Este conteúdo possui finalidade educativa e editorial.

Materiais de prevenção devem ser construídos a partir de informações tecnicamente verificadas, com linguagem proporcional ao risco, atenção às características do público e indicação de recursos adequados quando necessária.

Comunicação preventiva não substitui avaliação individual nem autoriza diagnóstico de pessoas ou grupos a partir de características isoladas. Em temas sensíveis, recomendações específicas de autoridades sanitárias e entidades técnicas devem ser verificadas antes da publicação.

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