Por que podemos nos sentir sozinhos mesmo cercados de pessoas?

Antes de aprofundar

Há pessoas que passam o dia cercadas de colegas, conversam com familiares, participam de grupos, recebem mensagens e mantêm muitos contatos. Ainda assim, quando a rotina diminui, pode surgir uma sensação difícil de nomear: “ninguém realmente sabe como eu estou.”

Solidão e ausência física de pessoas não são a mesma coisa. A Organização Mundial da Saúde distingue o isolamento social, relacionado mais objetivamente à quantidade e frequência das relações, da solidão, uma experiência subjetiva que aparece quando existe distância entre as conexões que temos e aquelas de que sentimos necessidade. 

Isso ajuda a compreender por que alguém pode estar acompanhado e ainda sentir-se profundamente só. A pergunta deixa então de ser apenas “por que me sinto sozinho se tenho tantas pessoas ao redor?” e passa a ser: “que tipo de encontro, pertencimento ou reconhecimento está faltando nas relações que tenho?”

Estar sozinho e sentir-se sozinho são a mesma coisa?

Não necessariamente.

Estar sozinho descreve uma condição objetiva: naquele momento, não há outra pessoa presente. Essa experiência pode ser desconfortável, mas também pode ser desejada, restauradora ou necessária.

A solidão envolve outra dimensão. Uma pessoa pode ter família, amigos, colegas, grupos e muitos contatos digitais e, ainda assim, perceber que os vínculos disponíveis não correspondem suficientemente àquilo de que necessita emocionalmente.

O contrário também é possível. Alguém pode ter poucas relações e experimentar nelas confiança, reciprocidade e pertencimento suficientes para sentir-se acompanhado.

Essa diferença é importante porque impede duas conclusões apressadas: considerar todo momento de solitude como um problema ou imaginar que a solução para a solidão seja simplesmente aumentar o número de pessoas ao redor.

A qualidade dos vínculos importa.

Por que estar cercado de pessoas nem sempre produz pertencimento?

Situação ilustrativa, composta para fins didáticos: uma pessoa participa de reuniões familiares, conversa diariamente com colegas e mantém vários grupos de mensagens. Quando alguém pergunta como ela está, responde quase sempre “tudo bem”. É conhecida como responsável, disponível e aquela que resolve problemas. Porém, percebe que há meses ninguém sabe que está atravessando uma mudança importante e que ela própria não encontra facilmente um lugar onde consiga falar sobre isso.

Há presença social.

Mas presença não significa necessariamente intimidade ou pertencimento.

A OMS considera a conexão social a partir de diferentes dimensões, incluindo a estrutura das relações, sua função e sua qualidade. Isso significa que quantidade de contatos e qualidade da experiência relacional são coisas distintas. 

Uma família pode se reunir frequentemente e conhecer pouco daquilo que cada pessoa vive internamente. Um casal pode compartilhar casa, responsabilidades e projetos e ainda perceber que certos assuntos deixaram de encontrar espaço. Um grupo de amigos pode oferecer companhia e, ao mesmo tempo, não ser o lugar onde alguém consegue mostrar determinadas fragilidades.

Pertencer envolve mais do que estar incluído.

Envolve experimentar que existe algum lugar possível para aquilo que sentimos, pensamos, desejamos e tememos.

Talvez, portanto, a pergunta relevante não seja apenas “quantas pessoas estão comigo?”, mas “em quais relações consigo existir sem esconder continuamente aquilo que é importante em mim?”

Podemos sentir solidão dentro de uma família, de um casamento ou de uma amizade?

Sim.

A existência formal de um vínculo não garante proximidade emocional.

Isso não significa concluir que determinada relação seja ruim nem localizar automaticamente a responsabilidade pela solidão em outra pessoa. Relações atravessam fases. Sobrecarga, trabalho, adoecimento, cuidado com filhos ou familiares, perdas e grandes mudanças podem reduzir temporariamente a disponibilidade emocional.

O que merece ser observado é como o vínculo funciona ao longo do tempo.

Existe possibilidade de falar e também de ser escutado? O cuidado circula ou uma pessoa ocupa quase sempre o lugar de quem sustenta, organiza e acolhe? É possível demonstrar necessidade sem sentir que isso ameaça a relação?

Reciprocidade também não significa equilíbrio perfeito. Em alguns momentos, uma pessoa precisará oferecer mais; em outros, poderá precisar ser sustentada. O que importa é existir alguma possibilidade de circulação.

O contexto também ajuda a compreender a experiência. Alguém pode sentir profunda solidão em uma relação específica e, ao mesmo tempo, experimentar pertencimento em outras. Outra pessoa pode perceber a mesma sensação atravessando família, amizades, trabalho e relacionamentos amorosos.

Essas situações levantam perguntas diferentes e não devem receber automaticamente a mesma explicação.

Redes sociais aproximam ou podem aumentar a solidão?

A relação entre tecnologia e solidão não é simples.

Redes sociais e recursos digitais podem preservar vínculos à distância, aproximar pessoas que compartilham experiências, permitir a formação de comunidades e ampliar possibilidades de contato. Por isso, não seria tecnicamente adequado tratá-los como causa automática de solidão.

Ao mesmo tempo, contato frequente não é equivalente a proximidade emocional.

Uma pessoa pode receber dezenas de mensagens, visualizar muitas vidas e ser vista por centenas de pessoas, mas ainda não encontrar um espaço no qual consiga sustentar uma conversa importante.

A própria OMS inclui a transformação digital entre os fatores que estão modificando as formas contemporâneas de conexão, sem reduzi-la a uma explicação única para a solidão. 

A questão, portanto, talvez não seja simplesmente quanto tempo passamos conectados, mas que tipo de vínculo conseguimos construir dentro e fora das telas.

Ser visto não significa necessariamente ser conhecido.

O que a psicanálise pode acrescentar à compreensão da solidão?

A contribuição psicanalítica não consiste em oferecer uma causa única para a solidão.

Ela pode, entretanto, ampliar a investigação.

Donald Winnicott formulou a capacidade de estar só como uma conquista importante do amadurecimento emocional. De maneira aparentemente paradoxal, ele relaciona essa capacidade à experiência de ter podido estar só na presença confiável de outro. Em seu texto de 1958, Winnicott distingue a capacidade emocional de estar só da simples condição física de não haver outra pessoa presente. 

Isso permite compreender que solitude e solidão não são equivalentes.

Uma pessoa pode estar fisicamente sozinha e manter internamente uma experiência de vínculo suficientemente segura. Outra pode estar acompanhada e sentir-se desconectada, desconhecida ou impossibilitada de mostrar aspectos importantes de si.

A psicanálise também pode deslocar a pergunta.

Em vez de investigar apenas “por que ninguém se aproxima de mim?”, pode ser necessário perguntar também:

“o que acontece comigo quando alguém se aproxima?”

Intimidade envolve algum grau de exposição. Permitir que alguém se aproxime significa correr o risco de ser conhecido não apenas nos aspectos competentes, organizados ou socialmente valorizados, mas também naquilo que envolve medo, necessidade, dúvida e vulnerabilidade.

Algumas pessoas mantêm muitos vínculos e, ainda assim, sentem-se pouco conhecidas porque são reconhecidas principalmente por uma função: a pessoa forte, eficiente, cuidadora, engraçada, disponível ou aquela que “não dá trabalho”.

Esses lugares podem oferecer pertencimento e reconhecimento. Ao mesmo tempo, podem limitar aquilo que encontra espaço na relação.

Com o tempo, os outros podem conhecer muito bem o papel desempenhado e conhecer pouco da experiência interna daquela pessoa.

A pergunta passa então a ser:

“quanto de mim consigo colocar em uma relação sem sentir que isso ameaça meu lugar nela?”

Isso não significa explicar toda solidão por dificuldades de intimidade. Exclusão, pobreza, discriminação, perdas, adoecimento, envelhecimento, mudanças geográficas e redução objetiva das redes de apoio também participam da experiência.

Perguntar pelo mundo interno não significa apagar o mundo em que a pessoa vive.

O que pode proteger da solidão?

A resposta não é simplesmente “socializar mais”.

A conexão social é reconhecida pela OMS como uma dimensão relevante para saúde e bem-estar, e seu fortalecimento envolve tanto relações individuais quanto condições comunitárias e sociais. 

Em algumas situações, o movimento possível pode ser aprofundar uma relação já existente: conseguir sustentar uma conversa que vinha sendo evitada, comunicar uma necessidade ou permitir que alguém tenha acesso a uma experiência que permanecia escondida.

Em outras, pode ser importante reconstruir uma rede diminuída por uma mudança de vida, retomar vínculos, participar de grupos ou encontrar novos espaços de pertencimento.

Também pode ser relevante compreender dificuldades persistentes em pedir ajuda, receber cuidado ou permitir proximidade.

Nenhuma dessas possibilidades deve ser transformada em prescrição universal. A solidão possui diferentes origens e significados, e aquilo que protege uma pessoa pode não responder às necessidades de outra.

A experiência humana inclui separação, silêncio e ausência.

O ponto de atenção aparece quando a solidão deixa de ser uma experiência transitória e começa a restringir progressivamente os vínculos, as atividades cotidianas e a própria possibilidade de buscar conexão.

Quando a solidão merece mais atenção?

A solidão merece atenção quando se torna persistente, produz sofrimento importante, aumenta o isolamento ou interfere significativamente na vida cotidiana, nas relações e no bem-estar.

O relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, publicado em 2025, estima que aproximadamente 16% da população mundial — quase uma pessoa em cada seis — tenha vivenciado solidão, com variações segundo idade, contexto e condições sociais. 

Isso não transforma solidão em diagnóstico.

Significa reconhecer que se trata de uma experiência humana relevante, capaz de afetar saúde e qualidade de vida, e que não precisa ser reduzida a fraqueza individual ou falta de esforço para “ter mais amigos”.

Quando a experiência se torna intensa ou persistente, conversar com um profissional de saúde pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais dimensões precisam de atenção.

Não é necessário chegar sabendo explicar tudo.

Pode-se começar por uma experiência simples:

“Tenho pessoas ao meu redor, mas não me sinto realmente acompanhado.”

Essa frase já contém uma pergunta importante.

Uma pergunta para levar

A solidão nem sempre revela ausência de pessoas.

Às vezes, revela distância entre presença e encontro, entre ser visto e sentir-se conhecido, entre ocupar um lugar e experimentar pertencimento.

Por isso, talvez valha perguntar:

“em quais relações da minha vida estou apenas presente — e em quais consigo realmente existir?”


Perguntas frequentes

É possível sentir solidão mesmo em um casamento?

Sim. Compartilhar casa, rotina ou projetos não garante intimidade, reciprocidade ou sensação de reconhecimento. Isso não permite concluir que o relacionamento esteja inadequado, mas pode revelar uma dimensão do vínculo que merece ser compreendida.

Solidão e isolamento social são a mesma coisa?

Não. Isolamento social está mais relacionado à quantidade objetiva de vínculos e interações; solidão é uma experiência subjetiva de desconexão ou insuficiência das relações percebidas. Uma pessoa pode experimentar uma condição sem necessariamente apresentar a outra. 

Gostar de ficar sozinho significa ser uma pessoa solitária?

Não. Estar só pode ser uma experiência desejada e saudável. Winnicott inclusive descreveu a capacidade de estar só como uma conquista relacionada ao amadurecimento emocional. 

Redes sociais podem aumentar a sensação de solidão?

Podem participar dessa experiência em determinados contextos, mas não existe uma relação automática. Recursos digitais também podem preservar e construir vínculos; seu significado depende do modo de uso, das relações e das condições de vida.

Quando procurar ajuda profissional?

Quando a solidão é persistente, dolorosa, aumenta o isolamento ou interfere de maneira importante na vida cotidiana e nas relações, conversar com um profissional de saúde pode ajudar a compreender melhor a experiência.


Glossário

Solidão: experiência subjetiva de desconexão ou distância entre os vínculos existentes e aqueles de que a pessoa sente necessidade.

Isolamento social: condição mais objetiva relacionada à quantidade, frequência ou disponibilidade de contatos e relações sociais.

Pertencimento: experiência de reconhecer que existe um lugar possível para si em determinado vínculo, grupo ou contexto.

Intimidade: possibilidade de compartilhar aspectos significativos de si dentro de uma relação que comporte proximidade, diferença e alguma confiança.

Capacidade de estar só: conceito desenvolvido por Winnicott para pensar a possibilidade emocional de permanecer consigo mesmo sem que a ausência imediata do outro seja vivida necessariamente como abandono.


Referências essenciais

WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: World Health Organization, 2025. Publicado em 30 jun. 2025. 

WINNICOTT, Donald W. The Capacity to Be Alone. International Journal of Psychoanalysis, v. 39, n. 5, p. 416–420, 1958. 

PORTUGAL, Flávia Batista et al. Rede de apoio social, saúde mental e qualidade de vida: um estudo transversal na atenção primária. Cadernos de Saúde Pública, v. 32, n. 12, 2016. DOI: 10.1590/0102-311X00165115. 



Sobre os autores

Djanira Soares — Enfermeira, psicanalista clínica, educadora e fundadora da Cuidar Soma — Psicanálise Integrativa. Possui formação e especializações nas áreas de Enfermagem Clínica, Educação na Saúde e Psicanálise Clínica e atua na formação de psicanalistas, com ênfase no desenvolvimento do raciocínio clínico e na compreensão integrada do ser humano.

Juan Alexandre Suarez — Advogado, engenheiro e consultor, com formação em Engenharia Elétrica e Direito e especialização em Segurança do Trabalho. Atua na estruturação de projetos, análise lógico-estrutural, gestão e interface entre aspectos técnicos, jurídicos e organizacionais nas produções da Cuidar Soma.


Nota institucional

Este conteúdo tem finalidade educativa e busca ampliar a compreensão sobre solidão, vínculos e conexão social. Não realiza avaliação individual, interpretação de relações específicas ou diagnóstico e não substitui acompanhamento profissional.

Este conteúdo é educativo e não substitui atendimento profissional, diagnóstico ou tratamento. Comentários não são canal de atendimento nem de emergência. Em situação de risco: CVV 188 · SAMU 192 · Ligue 180 · emergência 190. Situações ilustrativas são compostas.

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